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As nuvens alaranjadas do poente iluminam tudo com o encanto da nostalgia: mesmo a guilhotina. [Kundera]

Agosto 07, 2008

rei e senhor de Portugal e dos Algarves

Cavaco anda hipersensível, exagerado, dado a desproporções dignas de um novo-riquismo político que já não consegue disfarçar (aliás pouco aconselháveis a quem tem o poder de despoletar a bomba atómica constitucional...).

Primeiro alerta solenemente os portugueses por causa de algumas normas do novo Estatuto dos Açores (supõe-se que ninguém no país dormia bem à conta das rondas de audição prévia que o atrevido Estatuto impunha ao PR no caso de dissolução da Assembleia Regional); agora decreta que não quer aviões a perturbar-lhe o sossego das férias (é Cavaco no céu e Cavaco na terra).

Qualquer semelhança com a corte da Suazilândia está muito longe de ser uma coincidência.

Agosto 06, 2008

o que eles querem...

sabemos todos, ou o charme (pouco) discreto da clementina mecânica.

A excitação de Graça Moura é particularmente cómica: "Afinal, até os adeptos e simpatizantes do PS estavam à espera de que o PR se resolvesse a enxotar esta gente do poleiro. Havia outras coisas e ainda não foi desta. Mas pode ser que não tarde." O sol forte a bater nesta cabeça pensante do laranjal lusitano parece potenciar, definitivamente, um surrealismo de estio. Ah, a silly season, a silly season...

Julho 30, 2008

quem criou o monstro?

O PSD costuma arvorar-se em autoridade suprema no tocante ao controlo das finanças públicas. Trata-se de uma percepção que não sobrevive ao choque com a realidade (como o exemplo de MFL comprova)... No Blogoexisto de João Pinto e Castro arruma-se a questão em três tempos. Este gráfico é particularmente eloquente -- veja-se os défices de Cavaco pós-90, normalmente superiores a 6% do PIB.

nos livros de economia?

Estou ansioso para ler a versão integral do texto que Pacheco Pereira vai publicar sobre Marx e o marxismo. Há no entanto uma afirmação que me deixa algo perplexo: "Marx continua forte nos livros de sociologia e de economia, menos forte nos de filosofia, menos nos de política." Tal sentença deveria ser acompanhada de evidência que a sustentasse.

À primeira vista, diria que Marx continua mais presente na filosofia do que na economia. Numa formação standard de economia, Marx praticamente já só é ensinado em cursos de história do pensamento económico (o que é uma pena), e raramente terá o destaque de Adam Smith, Ricardo ou Marshall (e bem, julgo). Basta passear pelas estantes das livrarias e ver em que secção a influência de Karl Marx se faz sentir com mais força...

Por outro lado, o peso de filósofos neo- ou pós-marxistas (por exemplo, Frederic Jameson ou o popstar Slavoj Zizec) é incomparavemente superior ao de economistas que assim pudessem ser rotulados, os quais, por regra, não se situam na região central do debate na disciplina.

envelhecimento (muito) activo

Shigeo Tokuda, 74: "reformei-me mas não tinha nada que fazer nos tempos livres".

Julho 27, 2008

Julho 26, 2008

3,33 euros

ou 100.000.000.000 dólares do Zimbabué. Com tantos zeros, não deve ser nada difícil haver erros nas contas -- um tipo facilmente pode pagar dez ou cem vezes mais por um bem ou serviço. O gajo no café enganou-me, levou-me um bilião de dólares pelo galão e sandes mista e afinal só eram cem mil milhões. Não se faz, pá. Sacana do gajo. Não vale a pena maçar-se. Num cenário de hiperinflação, o valor real destas perdas reduz-se a um décimo em muito pouco tempo... e no Zimbabué a actual inflação é superior a 2.000.000%/ano. Ou seja: a inflação horária tem três dígitos. As notas perdem valor a cada minuto. Mais milhão, menos milhão, que importa?

Os cursos de política monetária na Universidade do Zimbabué (da qual Mugabe é, de resto, o magnífico reitor) devem ser interessantes.

Julho 15, 2008



Convém não esquecer que o cidadão bem informado lê o jornal e vê TV. Alguns até lêem blogues.

Julho 14, 2008

é capital

Há uns tempos fui a Lisboa e dei uns passeios a pé por algumas zonas centrais da cidade: Lapa, Alcântara, Cais do Sodré, Baixa Pombalina, Rossio, Avenida da Liberdade e ruas paralelas, etc., etc.. Para quem vive em Paris e já não explorava Lisboa (a pé) há já alguns anos, existe uma realidade que salta imediatamente aos olhos -- o estado de degradação de inúmeros edifícios. A sujidade, o desleixo absoluto. O Lisboa SOS dá bem essa imagem (é um blogue de serviço público!).

A cidade vai agonizando, e com isso o próprio país vai perdendo capacidade de atracção e credibilidade. É verdadeiramente uma pena: a capital podia ser outra coisa. Tem tudo para isso.

Julho 11, 2008

trufas à G8

A miséria destes "líderes" -- em política, não é impunemente que se ignora o poder do símbolo. Aquelas magras notas de rodapé da História trataram-se bem: 24 pratos. E, para variar, houve parole, parole, parole.

Julho 10, 2008

Sugestão de leitura:

a entrevista do economista Joaquim Oliveira Martins (OCDE e Sciences-Po Paris) ao e.economia. Aí se diz:

Por vezes, é melhor avançar (aparentemente) mais devagar e de maneira firme num campo abrangente de reformas do que fazer reformas mais profundas mas parciais (i.e., num grupo mais reduzido de reformas), que não vão dar o devido retorno porque as interacções com outras políticas não vão funcionar plenamente. A falta de resultados visíveis pode gerar um efeito de ‘cansaço’ em relação às reformas e um retrocesso com custos ainda maiores.
Está tudo aqui.

Julho 09, 2008

magnífico reitor

Não sabia: Mugabe acumula a presidência da república com a reitoria da Universidade do Zimbabué.

Julho 08, 2008

antecipar

Acho que Medeiros Ferreira tem razão. Mais cedo ou mais tarde, o Cavaco de sempre há-de reaparecer. Além disso, convém não esquecer que o manuelismo é um cavaquismo. E Sócrates sabe-o.

Julho 07, 2008

Refugiados

Imagine-se um pequeno país condenado a desaparecer em uma ou duas gerações, cujo presidente tem como principal missão encontrar um novo território para os seus cem mil habitantes. A história parece saída de um romance de Saramago, mas é mais ou menos isto que está a acontecer em Kiribati (e a situação no Tuvalu não é muito mais animadora). O país-arquipélago está a ser devorado gradualmente pelo Pacífico. Ano após ano, há pessoas que reconstroem as suas casas uns metros mais acima – até ao dia em que não será possível subir mais e a água tomará tudo.

Os contornos romanescos da questão não ficam por aqui. De quem é a culpa? Não é de ninguém – é de todos. A economia global contribui para o sobreaquecimento e para a subida do nível médio das águas do mar (embora haja uns tipos mais ou menos maluquinhos que dizem que não). Os I-Kiribati serão assim uma nação sem território – quase uns noviciganos das mudanças climáticas, escorraçados da sua terra por uma entidade vaga, sem rosto. Não existirá um responsável concreto a quem atribuir a culpa.

Haverá nisto aspectos de ordem psíquica – a uma inédita escala colectiva – cuja verdadeira profundidade é, suponho, difícil de antecipar. O luto pela terra (pela vida anterior) será incompleto. A sensação de se ser estrangeiro será permanente, lá onde os I-Kiribati encontrem refúgio. O idioma desaparecerá com o tempo, e pais e filhos (estes já nascidos nas outras terras) não estarão no mesmo comprimento de onda linguístico (com tudo o que isso comporta em termos emocionais). Etc., etc., etc.. Algures em 2030 ou 2050 as Nações Unidas serão chamadas para uma acção humanitária de grandes dimensões e tentarão contratar psicólogos que dominem o Gilbertano

O Kiribati é um país pequeno, distante e tranquilo. Parecia destinado a passar despercebido. Mas, a confirmar-se o cenário que aqui se traça, esta primeira grande vaga de refugiados climáticos arrisca-se a assegurar-lhe um lugar (trágico) na História Universal. O tom é algo apocalíptico, eu sei – mas aquela pode muito bem ser a vaga inaugural de uma nova era. Vejam o vídeo.

Sim: o Kiribati é um país a acompanhar. Enquanto existir.

Julho 06, 2008

guru para as coisas da vida

O CENA disponibiliza mais conselhos de Bruno Aleixo, o ewok coimbrão. Há dias assim, em que tudo ganha mais sentido. Ouçamos o sapiente mestre.

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